Por Ana Helena Tavares (*)

Quando decidi que iria mergulhar na ousada missão de biografar Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, uma das primeiras perguntas que me fiz foi se as causas que ele abraçou ainda eram atuais. A resposta positiva surgiu de imediato, como uma flecha indígena que corta um latifúndio.

Se as causas do bispo catalão que se apaixonou pela América Latina não fossem atuais, eu não teria presenciado, em setembro de 2012, quando fui entrevista-lo pela primeira vez, um embate por posses de terras, no qual os interesses de posseiros se chocaram com o direito dos índios, numa luta de oprimidos contra oprimidos.

Se as causas de Pedro Casaldáliga não fossem atuais, não se estaria discutindo o conceito de trabalho escravo, pois a escravidão não seria coisa atual. E não seria possível dar dez para redações do ENEM que advogassem em favor do ódio racial, pois o ódio, todos os ódios, estariam, no mínimo, envergonhados.

Enquanto o ódio desfilar por aí sem acanhamento, ele haverá de ser combatido, confrontado, embaraçado por aqueles que professam o amor e usam o afeto como arma. Enquanto persistir a exploração cruel do homem pelo homem, gerando fome, miséria e marginalização social, será necessário que existiam Pedros, muitos Pedros.

Em seu livro “O caminhar da Igreja com os oprimidos – Do Vale de Lágrimas à Terra Prometida”, Leonardo Boff afirma: “Ninguém é feito profeta porque quer. É feito profeta pelo protesto e pela esperança face às contradições da realidade social.” Pedro Casaldáliga e muitos outros, religiosos ou não, ganharam relevância, portanto, porque se depararam em suas épocas com injustiças diante das quais não puderam se calar.

Aqueles que gritam, esperneiam, vociferam contra as ações de gente como o bispo Pedro deveriam antes se voltar contra a realidade que torna os Pedros tão atuais e necessários. Deveriam perceber que ser irmão do outro é também ser irmão de si, uma vez que um ambiente onde muitos são felizes é certamente mais habitável.

Preferem, porém, sustentar e tolerar um mundo e especialmente um Brasil conjugados eternamente no passado. Preferem manter, pela mão pesada do poder econômico, milhões de pessoas sem acesso a uma vida digna.

Sendo assim, haverá de ter quem faça o que fez Jesus ao se deparar com vendilhões no Templo. Afinal, como versou o bispo-poeta Pedro Casaldáliga, em seu livro “Cantigas Menores”: “As grandes empresas / já têm suas placas / Meu canto deve gritar /o silêncio dos pobres.”

Ana Helena Tavares é jornalista. Foto: Brasil de Fato.

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